ESES • Seminário – Quando o professor entra na história: intervenção docente e atividade metalinguística na escrita colaborativa

Calil

30 de junho de 2026, 16h

Quando o professor entra na história: intervenção docente e atividade metalinguística na escrita colaborativa

Eduardo Calil
Universidade Federal de Alagoas ORCID ID: https://orcid.org/0000-0002-8696-3697

 

Sessão híbrida

• Active Education Space – B0.03 – ESE | IPSantarém
• Microsoft Teams

Participar: https://teams.microsoft.com/meet/355074367870551?p=uyPvfpQWfdqTYm06IN

ID da Reunião: 355 074 367 870 551
Código de acesso: r9Jm3zG9


Propõe-se uma reflexão sobre o papel do professor nos processos de escrita e sobre as potencialidades da intervenção docente na aprendizagem da língua. A partir de estudo longitudinal em sala de aula, a palestra dirige-se a investigadores e professores interessados na didática da escrita, na formação de docentes e na construção de uma educação de qualidade, podendo ainda abrir caminho a futuras colaborações de investigação.

Público-alvo:
– Comunidade académica da ESE|IPSantarém
– Linha Temática “Educação de Qualidade”
– Docentes e estudantes do ensino superior
– Professores do ensino básico


SINOPSE

O que significa uma educação de qualidade no ensino da língua escrita? A palestra parte desta questão para analisar, com base em dados empíricos recolhidos em sala de aula através do Sistema RAMOS, uma situação frequente da vida escolar: dois alunos escrevem em conjunto uma história e, em determinado momento, confrontam-se com um problema linguístico no manuscrito em construção. É nesse episódio, aparentemente simples e quotidiano, que a qualidade do ensino se torna observável.

Enquanto sistema multimodal de captura dos processos de escrita em tempo e espaço reais, o Sistema RAMOS permite registar e analisar o que acontece quando os alunos identificam dificuldades durante a produção textual colaborativa. A expressão “entrar na história” traduz o que os dados tornam visível: o professor intervém no próprio processo de escrita. A questão central, simultaneamente analítica e formativa, consiste em compreender de que modo essa intervenção ocorre e que efeitos produz no desenvolvimento do texto e da aprendizagem.

Os dados revelam que a presença docente assume formas distintas, com implicações diferentes para uma educação de qualidade. A primeira é uma presença indireta: o professor surge como voz diferida nas categorias que os alunos mobilizam, nos comentários que produzem e nos argumentos que usam para convencer o colega. Ao evocarem conteúdos gramaticais, normas de pontuação ou convenções ortográficas para sustentar uma decisão de escrita, os alunos transformam o que foi ensinado em recurso metalinguístico. Embora o professor permaneça fisicamente afastado da díade, a sua intervenção anterior torna-se presente nas falas dos alunos. Não se trata de simples repetição, mas de apropriação – um indicador relevante de ensino de qualidade.

A segunda forma é uma presença direta: o professor dialoga com a dupla e intervém no manuscrito em construção ou nos aspetos relacionais da colaboração. É nesse momento, quando os alunos divergem sobre um objeto linguístico, que o

professor “entra na história”. A forma como responde torna-se, então, reveladora da sua conceção de ensino.

Essa resposta, contudo, não é homogénea, e é aqui que a questão da qualidade se torna mais exigente. Em alguns episódios, o professor reconhece o objeto linguístico em causa: nomeia-o, toma posição, valida ou corrige o argumento de um dos alunos. Nesses casos, a intervenção incide sobre o saber linguístico e contribui para que o aluno aprofunde o seu conhecimento sobre a língua. Noutros, o professor não identifica o objeto em disputa: gere a tensão entre os alunos e restabelece a ordem do trabalho colaborativo, mas nada explicita sobre a língua. O conflito fica resolvido; o problema linguístico que lhe deu origem permanece, porém, opaco. A ordem é restaurada, mas a aprendizagem não se concretiza.

A partir de episódios recolhidos com alunos do 1.º ciclo em escolas portuguesas, a palestra examina estas modalidades de presença docente e discute as suas implicações para a formação de professores e para uma educação de qualidade no ensino da língua. Em particular, interroga o que significa ensinar conteúdos linguísticos de modo a que se convertam em recursos para a escrita autónoma, bem como o que o modo de intervenção do professor revela sobre a aprendizagem e sobre a própria prática docente quando dois alunos procuram resolver, em colaboração, problemas que emergem durante a escrita de uma história.

Partilhar: